A sustentabilidade entrou no vocabulário do empresariado brasileiro gradualmente. Primeiro, como exigência regulatória; depois, como pressão de stakeholders; por fim, como diferencial de mercado. Poucas empresas industriais do porte da Eucatex percorreram esse caminho de trás para frente, adotando práticas ambientais antes de qualquer obrigação ou vantagem visível.
Flávio Maluf, presidente da Eucatex desde 1997, articula a lógica com uma frase que repete com frequência: antecipar tendências, não reagir a elas. No caso da empresa, essa frase tem data de início precisa: 1996.
A certificação que ninguém pedia
O FSC tinha sido fundado há menos de três anos quando a Eucatex obteve a certificação de suas florestas. No Brasil, o selo era desconhecido. Os clientes nacionais não pediam. Os clientes internacionais ainda não exigiam formalmente.
A empresa certificou suas operações florestais assim mesmo.
Quatro anos depois, quando a Home Depot passou a incluir a rastreabilidade ambiental como critério de compra, a Eucatex já tinha o documento. Os concorrentes que chegaram nessa mesma conversa sem a certificação tiveram de iniciar um processo que leva anos. Alguns nunca chegaram à mesa.
A relação comercial com a Home Depot permanece ativa até hoje.
A floresta como fundação
Toda a operação parte de 48 mil hectares de florestas próprias de eucalipto no interior paulista. A empresa produz 13 milhões de mudas clonais por ano, com um programa de melhoramento genético que a coloca entre as empresas com maior incremento médio anual do país.
O eucalipto tem ciclo de colheita de até 7 anos. A madeira que não vai para os painéis vira biomassa. Resíduos industriais alimentam um programa de reciclagem que conta com mais de 300 parceiros. O Programa de Educação Ambiental, em operação desde 1999, conecta as comunidades próximas às florestas à lógica de manejo sustentável que sustenta a cadeia inteira.
Nenhuma dessas iniciativas foi criada em resposta a uma exigência externa. Todas precederam as obrigações que vieram depois.
Energia como a próxima peça
O investimento de R$ 300 milhões na Usina Solar Castilho seguiu o mesmo raciocínio.
A planta, a maior do estado de São Paulo, elevou a participação de fontes sustentáveis na geração de energia das fábricas para 50%. Pesquisa da Abrainc com a Brain, publicada em 2021, mostrou que 66% dos entrevistados pagariam mais por imóveis com energia solar. O mercado consumidor vai chegar a esse número em algum momento. A Eucatex já construiu a infraestrutura.
A decisão também tem uma lógica puramente financeira: reduzir a dependência de combustíveis convencionais reposiciona o custo de produção a longo prazo, independentemente de qualquer demanda por produtos sustentáveis.
O resultado acumulado
Em 2025, a receita da Eucatex alcançou R$ 3,1 bilhões. As exportações respondem por cerca de 25% desse total, com os Estados Unidos como principal mercado, atendido pela Eucatex North America, subsidiária sediada na Flórida. O portfólio de exportação abrange mais de 40 países.
Em 2023, o BTG Pactual adquiriu 33,4% do capital total da empresa. Poucas validações externas de um modelo de negócios são mais objetivas do que a entrada de um grupo financeiro de tal relevância no quadro societário.
Para 2026, o plano de investimentos prevê R$ 500 milhões, um aumento de 40% em relação ao ano anterior. O foco está na expansão florestal, na modernização industrial e em possíveis aquisições no Brasil ou em mercados próximos, como a Argentina.
A antecipação realizada em 1996 ainda está gerando retorno.











